"KISS OF
LOVE" JAZZ + MAGAZINE REVIEW
O que poderia ser muito complicado
para alguns fica fácil para a cantora, arranjadora e compositora brasileira
Maria Farinha. Pois, como muitos devem saber, não é tão simples nos dias de hoje
fundir jazz com os três elementos fundamentais do núcleo musical brasileiro -
samba, bossa nova e MPB - sem perder o tato ou sem afundar em armadilhas que nos
levem aos velhos caminhos exaustivamente explorados por tantos músicos em mais
de 40 anos. Maria Farinha, equipada por um timbre de voz denso e cativante e um
por bom senso incomum, encontrou a saída perfeita para manter a originalidade do
seu lado. Debruçada sobre um jarro com mais de 120 mil chaves, ela encontrou a
única cópia lapidada para abrir sua caixa de surpresas e apresentar aquele disco
que farão muitos intérpretes exclamarem: “mas por que eu não fiz isso
antes?!” Em seu
novo álbum, Beijo de Amor/Kiss of Love, Maria Farinha revigorou a receita
utilizada em Endless Samba, seu trabalho anterior, lançado em 2002, criando
novos espaços para composições próprias e para standards da música popular
brasileira e norte-americana. E talvez seja a extrema curiosidade e o
inconformismo que levam Maria Farinha a explorar todos os caminhos que estejam à
mão. Ela ilustra com semelhante desenvoltura sambas como “Amanhã Ninguém Sabe”,
de Chico Buarque, e o baião/modinha “Eu Vim da Bahia”, de Gilberto Gil, e
arremata com soberba profundidade tanto a bossa nova moderna de Roberto
Menescal, em “Fuji Samba”, como a poética “Candeias”, de Edu Lobo, simbólica
composição do cancioneiro clássico da MPB. Seu ecletismo é tanto que ela arrisca
aqui até mesmo um bolero de cunho próprio, “Nuestra Cancion”, com participação
especial do vocalista Gilson Neri e do flugelhorn bem pontuado por Daniel
D'Alcântara. Na abertura do CD, a faixa
de própria autoria “É Samba, Meu” traz a arrebatadora apresentação de alguns dos
poderosos instrumentistas que se aliaram a Maria Farinha nesse projeto. No
baixo, Thiago do Espírito Santo, filho do multiinstrumentista Arismar; na
percussão, Luis Rabello; e na bateria, Alex Buck, um dos mais completos de sua
geração. Nos sopros, três mestres: novamente Daniel D'Alcântara, dessa vez no
trompete, Vitor Alcântara no sax tenor e o impressionante Nailor Azevedo, o
Proveta, no sax alto, cérebro da banda Mantiqueira. Mas é o piano sutilmente bem
delineado por Silvia Góes, que cria o elo perfeito desse samba-jazz à paulista
escrito e arranjado por Farinha. Em “Dançarina do Ocidente”, outra composição
da intérprete, o segredo está na sincronia entre os grooves do tecladista João
Cristal e a percussão dividida por Da Lua, Cláudio Baeta e Luis Rabello. “Beijo
de Amor”, sua quarta composição, traz novamente à tona o piano bem articulado
por Silvia Góes, completando com perfeição a dinâmica da melodia imposta por
Maria Farinha. O entrosamento das duas é tão belo e intenso, que nos remete à
mágica harmonia de duetos clássicos, como as notáveis formações entre o pianista
André Previn e a cantora Doris Day e o bandleader Stan Kenton com a intérprete
June Christie. Efeito semelhante se sobressai em “Little Tears Razões de Viver”,
de Eumir Deodato e Paulo Valle. "You and the Night and Music", escrita por
Howard Diet e Arthur Schwartz, sucesso da Broadway dos anos 30 na voz de Libby
Holman, define a alta categoria de Maria Farinha, que não perde o equilíbrio
quando invade o songbook norte-americano. Se Endless Samba foi considerado
quatro anos atrás a nova “obra-prima do jazz-brasileiro” pela mídia
especializada dos Estados Unidos, Kiss of Love não terá elogios à altura para
defini-lo. Vinicius Mesquita Editor da Revista JAZZ
+ |